12 de dezembro de 2009

O amor é uma viagem

É bem fácil, e até divertido, fazer uma analogia do amor com uma viagem. Não lembro quem me disse um dia destes, que para saber se uma relação amorosa pode ser legal, o melhor, antes de juntar os trapos, é viajar juntos. Há que se ter muita paciência mútua para ficar dias num mesmo carro, quarto de hotel, barraca, enfim, seja o que for, durante um tempo sem se incomodar, às vezes, com questínculas, como diz o diminutivo redundante, bem mínimas.

Numa viagem, como num amor, em algum momento um quer ir, o outro quer voltar, um quer o leste, outro o sul, quer ternura outro o tesão. Para que a viagem seja harmoniosa, alguém tem que ceder, ainda mais se a ideia é ficar juntos até o fim, ainda que não saibamos bem direito o que seja o fim. No amor, como numa viagem, os termos são mesmos. “Nosso destino”, “seguir juntos” ou “essa nossa jornada” têm conotação igual tanto para quem viaja quanto para quem ama.

Tanto o amor quanto a viagem têm um começo, um meio e um fim, mesmo que esse fim seja a indesejada das gentes. Talvez, uma das poucas coisas que diferencie o amor da viagem seja a frase “juntos para sempre”, até porque as viagens são mais curtas do que um “para sempre”.

No amor também é necessário “traçar um rumo”, e, no meio, “rever o destino”. Também é possível, tanto na viagem quanto no amor “mudar os planos”. Esta frase talvez seja a maior responsável pelo fim das viagens ainda na metade, assim como dos amores.

Tanto numa viagem quanto no amor, talvez o grande barato seja o frio na barriga do começo, as incertezas e dúvidas no meio, e a saudade e a melancolia do fim. Para amar, às vezes, é preciso comprar uma passagem só de ida, ou arrumar as malas, ou voltar desde o começo da estação, ou jogar o bilhete fora, porque a viagem supostamente não tem futuro.

Mesmo que leve duas semanas para chegar o dia, ou quatro horas e meia para desembarcar no grande e quase utópico terreno de batalha ao qual chamamos de hotel, o amor é mesmo uma viagem, cujo destino é o imponderável, e cuja consequência é o incomensurável.

5 de dezembro de 2009

Razão e paixão no futebol

Nenhuma religião, partido político, banda de música, associação, clube ou qualquer outra atividade coletiva humana junta tanta gente como o futebol. Por conta disso, da coletivização do espetáculo, o futebol não prescinde da paixão, por mais que racionalistas (como sou tantas vezes chamado pelos leitores) queiram o contrário.

Ainda que a gente não consiga descartá-la a qualquer momento, ou deixá-la de lado, a paixão emburrece qualquer coisa. Ela não deixa ver, na maioria das vezes, o óbvio. A paixão mata e faz matar, ela é cega, e, no futebol, ela mais obscurece do que abrilhanta uma partida.

Por causa da paixão é que ainda existe a regra do impedimento. Num espetáculo cujo objetivo é marcar gols, impedir que um atacante se coloque inteligentemente (sim, com razão) longe do defensor é uma desrazão. Não parar o relógio, como em outros esportes como o basquete, por exemplo, que não acaba nos pontos, como o vôlei, também é fruto de uma paixão doentia (sei que é redundância, já que toda paixão é doença, pois vem do grego pathos, que nos deu patologia).

Se a cada vez que a bola parasse, o tempo fosse interrompido, acabaria de vez essa desrazão de jogadores fazendo cera. Mas não, os brucutus da paixão adoram essa palhaçada de jogador caindo por qualquer encostão, ou de juiz dar desconto sem nenhuma razão e a seu critério, como fez com o Fluminense, na última quarta-feira.

Ainda bem que a razão prevaleceu no campeonato brasileiro, desde que instituíram os pontos corridos. Cada partida é decisiva, e a prova é a grande final de amanhã, que será dividida (ainda que já saibamos que o Grêmio perderá) em quatro grandes finais. Só mesmo movido pela paixão que torcedores do Inter, Palmeiras e São Paulo irão aos estádios pensando o oposto. Paixão é isso mesmo, é pensar que se pode, é ter um pingo de esperança, ainda que a razão nos diga o contrário.

E por falar em falta de razão, os cartolas da Fifa não deram bola para a ideia razoável de incluir juízes atrás dos goleiros. Penso, às vezes, que esse medo de mudar no futebol, movido pela paixão, é que estimula a violência nos estádios. Mais razão nas regras levaria naturalmente mais razão ao torcedor.